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06/06/2010 - 07:08:01

Informalidade que rima com criatividade

 07/02/2012
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Com muita imaginação, vendedores informais encontram maneiras de garantir a sobrevivência nas ruas.



Pode parecer incomum. Porém, alguma vez já precisou alugar, rapidinho, uma calça jeans no meio da rua? Ou, então, o sapato quebrou na correria e, na hora, teve de consertar? Pelas ruas de Fortaleza, isso não é impossível. Numa simples volta por diferentes bairros, como Aldeota, Dionísio Torres e Papicu, pode-se encontrar variados serviços e produtos oferecidos informalmente que, muitas vezes, estão longe do Centro, de shoppings ou de grandes lojas.

Como bem lembra o vendedor ambulante José Roberto da Silva, de 31 anos, foi devido à grande procura por calça jeans que ampliou o negócio, próximo à Assembleia Legislativa, no bairro Dionísio Torres.

De acordo com ele, há 10 anos, começou vendendo bombons e cigarros. No entanto, com frequência, aqueles que eram impedidos de entrar na Casa parlamentar, por estarem de bermudas e camisetas, pediam-no emprestado suas roupas. Desde então, decidiu alugar "pelo que quiserem pagar", como explica.

Além disso, Roberto pendurou um cartaz com todos os serviços oferecidos. Fora as calças, ele também passou a investir na venda da unidade do cartão telefônico, R$ 0,25 cada uma, para aqueles que precisam fazer só uma ligação rápida; encher isqueiros, entre outros.

Brincadeira

"A pessoa devolve o cartão e paga pelo que gastou. Também coloquei que vendo informações, mas é apenas brincadeira, porque me perguntam muito nomes de ruas", brinca, o vendedor ambulante, com as ideias.

Da mesma forma que José Roberto da Silva; o sapateiro François Vasconcelos, de 46 anos; o "galego" Alberto José de Lima, de 58; o chaveiro Manoel Cordolino da Costa Filho, de 36; e Francisco Carlos de Oliveira, de 53 anos, sobrevivem, diariamente, do comércio informal nas ruas da Capital.

Assim como eles, os dados do Sistema Nacional de Emprego / Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (Sine/IDT) indicam que, somente em 2009, dos 1.512 mil ocupados na Região Metropolitana de Fortaleza, 880 mil eram assalariados e 404 mil, os chamados autônomos, que compõem os integrantes do mercado informal.

O sapateiro François, por exemplo, há 20 anos, conserta calçados no canteiro central da Avenida Santos Dumont, no Papicu, incentivando os quatro enteados a fazerem o mesmo. "Foi a última solução. Fiquei desempregado e não arranjava emprego", justifica. Conforme ele, por conta da movimentação na grande avenida, a clientela, em sua maioria mulheres, busca seus serviços para trocar solas ou virolas dos saltos.

"Seu" François avisa que a esposa, na necessidade, também faz o serviço. "Moro aqui perto, todo dia venho de bicicleta. Cada um fica em um ponto da avenida, e dá para se virar". Em relação à ideia, o sapateiro revela que "veio da cabeça".

Desempregado

Afinal, ele trabalhava na construção civil e ficou desempregado. "A necessidade de sobreviver me fez consertar os calçados", comenta ele, revelando que sequer tem a média do quanto fatura mensalmente.

PROTAGONISTAS
Diferentes caminhos

"Ele comercializa há 40 anos, agora com ajuda do filho, panelas, bacias, redes, toalhas, entre outros artigos. Quatro vezes na semana, com os produtos no carrinho, eles caminham pelos bairros Papicu, Cidade 2000, indo até as comunidades Pau Fininho e Verdes Mares"
Alberto José de Lima

"Em meio às ruas da Aldeota, Francisco Carlos vende, há três anos, salgados e sucos na garupa da bicicleta. Para ele, a opção foi tomada quando ficou desempregado. Já o bairro foi escolhido para evitar a confusão de vendedores que já existe no Centro de Fortaleza"
Francisco Carlos de Oliveira

FENÔMENO
Comércio ambulante marca a história

Conforme a doutora em Sociologia Neiara Araújo, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), o comércio informal é um fenômeno comum à sociedade brasileira como um todo já que, desde o período medieval, como os feudos, essa prática acontecia na Europa. E, com a vinda dos portugueses e escravos ao País, o comércio nas ruas também acontecia.

Para ela, em meio ao capitalismo, a informalidade pode ser explicada, em parte, pela expulsão dos trabalhadores do mercado causada pelo próprio modelo. Como explica Neiara, que também é coordenadora da linha de pesquisa da pós-graduação "Processos de Trabalho, Estado e Transformação Capitalista", a questão "formal versus informal" sempre esteve no cerne da questão do Capitalismo. Assim sendo, além do Brasil, a formalidade é, até mesmo, um "problema" para os países desenvolvidos, pois implica no pleno emprego (carteira assinada, benefícios etc).

"A crise do emprego se acentua, de fato, como tendência global do capitalismo". Tanto que, conforme Erle Mesquita, coordenador de Estudos e Análise de Mercado do Sine/IDT, no Estado, como em todo o País, percebe-se, em geral, que metade da população ativa se encontra no mercado informal e a outra metade, no formal.

Como perfil dos vendedores informais, segundo Erle Mesquita, eles se dividem entre os que têm mais de 40 anos e não conseguem reingressar no mercado; os que querem ter sua própria jornada; e os que estão mais vulneráveis, sem ocupação. Específico no Ceará, pontua Erle, o estudo de 2007 detectou que, diferente do que consta na literatura da área, a informalidade aumentou em épocas de crescimento econômico e não em períodos de crise na economia.

(JANINE MAIA REPÓRTER Diário do Nordeste)

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