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09/08/2010 - 06:41:33

Doença de chagas - Pesquisa revela contaminação

 07/02/2012
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Parceria entre UFC e Secretaria de Saúde de Limoeiro indicam casos da contaminação pela Doença de Chagas.



Limoeiro do Norte. Faltam informação e cuidado com uma doença crônica séria, um caso de saúde pública, mas que começa pelos dilemas da desigualdade social. Quanto mais miserável e piores as condições de vida, mais condições se reúnem para a chegada dos mosquitos transmissores da Doença de Chagas. O dilema: a maioria dos que possuem a doença ainda não sabem disso. Numa iniciativa da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, comunidades de Limoeiro do Norte participam de pesquisa com exames para identificar a doença bem como os riscos de contaminação pelos barbeiros. Com as descobertas "por acaso", já há pacientes tratados tentando a cura.

"Se as pessoas, assim que sentem que tenham sido ferroadas pelo mosquito pudessem procurar um médico ou mesmo o agente de saúde para tratamento, é a própria vida que se estaria salvando", afirma Gláucia Moura, do Núcleo de Epidemiologia da Secretaria da Saúde de Limoeiro do Norte. Isso porque, muitos casos, quando descobertos, já estão num estágio avançado, tornando a cura objeto médico improvável. A descoberta precoce da doença favorece o tratamento e a cura.

Pesquisadores da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Ceará, liderados pela professora Maria de Fátima Oliveira, têm feito visitas regulares a comunidades de Limoeiro do Norte para realização de exames nas comunidades e nas residências com maiores probabilidades de se encontrar o barbeiro. O resultado tem sido o diagnóstico da Doença de Chagas em pessoas que não imaginavam ou somente suspeitavam que estavam com a doença.

Em cerca de 200 exames com moradores das comunidades de Pedra Branca, Sítio Espinho, Várzea do Cobra e Sapé foram identificados 13 casos positivos para a doença. A análise é feita pelo laboratório de parasitologia do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da UFC. Em alguns casos confirmados em Limoeiro já estavam em ritmo avançado, mas na maioria os piores sintomas ainda não eram conferidos. Todos os pacientes têm sido encaminhados para consultas e exames regulares em Fortaleza. Durante o ano, mais comunidades serão visitadas, e o diagnóstico compartilhado com a Secretaria Municipal de Saúde.

A divulgação quanto aos cuidados sobre o Mal de Chagas, transmitido principalmente pelo mosquito barbeiro e causada pelo parasita "Trypanossoma cruzi", tem aumentado a preocupação dos moradores principalmente da zona rural. É surgir um caso na vizinhança e todos correm a vista nas paredes de casa, no terreiro, para identificar se tem o barbeiro.

Dona Antônia Lopes mora numa casa de taipa na localidade de Várzea do Cobra, com casos confirmados de doença. "Mas graças a Deus não vi nenhum barbeiro não", afirmou. Mas nem só nas frestas das paredes de barro se esconde o mosquito. Entulhos de construção, tijolos antigos e até cercado de madeira do galinheiro.

Transmissão

A Doença de Chagas é transmitida por meio do contato com as fezes e com a urina do barbeiro infectado, quando este pica o homem. O barbeiro se alimenta de sangue e costuma atacar à noite, enquanto os moradores dormem. O início da doença costuma aparecer, no local da picada, um inchaço vermelho e endurecido entre o sétimo e o décimo dia depois da picada, e desaparece com 30 dias.

Esse inchaço é conhecido como chagoma de inoculação. Procurar a equipe do Programa Saúde da Família é a primeira orientação. Em Limoeiro do Norte, vários bairros têm revelado positividade para infestação do barbeiro e com confirmação da contaminação, colocando o Município em quadro grave em relação à doença. E, de acordo com Gláucia Moura, o problema tem sido mais frequente mesmo na zona urbana.

Fique por dentro
Carlos Chagas identificou o "mal"

Há 101 anos, em abril de 1909, o pesquisador Carlos Chagas, do Instituto Oswaldo Cruz, identificou a doença pela primeira vez. Antes, já havia identificado o inseto vetor-transmissor e o agente causador, o Trypanosoma cruzi, nome em homenagem ao médico sanitarista Oswaldo Cruz. Mais de 130 insetos podem transmitir a doença, porém, a maioria deles ainda não foi muito estudada. A forma mais conhecida de transmissão é por meio das fezes de insetos hematófagos (que se alimentam de sangue), os chamados barbeiros. Enquanto se alimenta, o barbeiro infectado deposita fezes com parasitas na pele. Se a pessoa coçar a picada e logo após esfregar os olhos, nariz ou boca, os parasitas podem entrar no sistema sanguíneo. Se uma pessoa infectada é picada por outro inseto, os parasitas infectam o inseto. A transmissão também pode ocorrer por transfusão de sangue, de mãe para bebê por meio da placenta, acidentes em laboratório e pela ingestão de alimentos contaminados (não só o açaí e o caldo de cana). Na Doença de Chagas Aguda tem sintomas como febre, mas eles são tão escassos que costumam passar despercebidos. A maioria dos infectados não sabe que tem a doença. Na fase crônica, pode provocar lesões no coração, no esôfago e no intestino. Um terço dos infectados desenvolve lesões cardíacas. Na fase aguda, a doença tem tratamento e pode ser curada. Na fase crônica, o tratamento é apenas paliativo. Para prevenir, o Ministério da Saúde orienta que se evite que o inseto forme colônias dentro de casa, sejam usados mosquiteiros ou telas protetoras, repelentes e consumo de alimentos de pasteurizados.

MAIS INFORMAÇÕES
Secretaria Municipal da Saúde - Limoeiro do Norte
(88) 3423.1165
www.limoeirodonorte.ce.gov.br

MELHORIA NA HABITAÇÃO
Como erradicar a doença

Limoeiro do Norte.
A soma é natural e perigosa, pois associada à pobreza, a Doença de Chagas estará mais passível de erradicação. Resolver a precariedade das moradias e dar acesso a saneamento básico são algumas medidas que colocam o problema no corredor da solução.

O dado pessimista é que passado um século da descoberta da doença, especialistas acreditam que só em mais 50 trabalhosos anos se poderá acreditar na erradicação da doença. Duas décadas atrás, a área endêmica da Doença de Chagas correspondia a 36% do território brasileiro, com triatomíneos domiciliados em 2.943 cidades, praticamente metade dos municípios da Federação.

Hoje, a situação é diferente. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) existem, no Brasil, 3,5 milhões de indivíduos contaminados, dos quais dois milhões são pacientes crônicos. Anualmente, morrem cinco mil pessoas.

Mudar as condições de quem mora em residências precárias, em casas de taipa com verdadeiros espaços prontos para virarem nicho para o barbeiro, mosquito transmissor da doença, é apenas uma das medidas para se erradicar a doença. Estudo da Universidade de São Paulo aponta que os doentes, hoje com idades entre 15 e 29 anos, 240 mil ainda estarão vivos em 30 anos; e os que tem idade entre 0 e 4 anos serão 113.750 vivos em 40 anos, revelando a necessidade de até lá se evitar novas formas de transmissão - atualmente se sabe que 130 mosquitos podem transmitir a doença, e a maioria dos infectados não sabe que possui a doença. As casas de taipa foram substituídas por de tijolo, causando forte impacto no combate à infestação do mosquito desde o Projeto de Melhoria Habitacional para o Controle da Doença de Chagas (PMHCh), adotado pelo Ministério da Saúde pela primeira vez em 1967.

Desde 1991, com a criação da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), este órgão expandiu o projeto para todo o País, concentrando-se nas regiões em que a doença está mais presente. Esse planejamento domiciliar é associado a iniciativas dos Estados e municípios.

Em Limoeiro do Norte são desenvolvidos projetos habitacionais visando à erradicação das casas de taipa. O levantamento feito no ano passado em 34 localidades indicou positividade para o triatomíneo transmissor em 24 delas. Somando-se a outras dez áreas limítrofes têm-se praticamente 200 casas de barro que precisam ser melhoradas com urgência.

A situação é mais crítica nos bairros Tabuleiro Alto, Sítio Danças, Jurema, Sítio Gangorra da BR-116, Sítio Bom Fim, Várzea do Cobra, Sítio Bom Fim do Zé Maranhão, Sítio São Raimundo, Fazenda Quixeré, Sítio Canto Grande do Quinzinho, Sítio Lagoa do Boi, Sítio Córrego de Areia, Bairro Luiz Alves de Freitas, Fazenda Sabiá, Sítio Núcleo Habitacional R, Sítio Espinho, Jurema do Serrote, Sítio Liberdade, Sítio Pedras Quixeré, Fazenda Pirapora, Sítio Recurso, Sítio Saco Grande, Sítio Saquinho e Sítio Ubaia.

Em todo o País, o financiamento para substituição de casas de taipa pelo Projeto de Melhoria Habitacional para o Controle da Doença de Chagas (PMHCh), da Funasa com critérios estabelecidos.



Melquíades Júnior
Colaborador Diário do Nordeste.

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